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N377
Setúbal, 2970
Portugal

Reflexões, Partilhas e Divagações de João Sevilhano

Este site ainda não tem um propósito claramente definido. Existe, para já, para poder publicar algumas das coisas que escrevo e outras que considero interessantes de partilhar.

Há medida que o propósito for ficando mais claro, logo se reflectirá nos conteúdos e estrutura do próprio site.

Blogue

Coisas escritas por mim.

Filtering by Tag: coaching

Balanço*

João Sevilhano

Depois das conferências de coaching em que participei, esta última em Londres, de onde escrevo estas palavras, fico sempre com ideias e sentimentos contraditórios. Se, por um lado, fico contente por me ver diferente de grande parte das pessoas que encontro também fico desapontado por ver que a grande maioria não entende as, para mim, mais importantes mensagens que aqui se passam.

São pessoas que se encantam facilmente, estas que se dedicam ao “desenvolvimento pessoal”. Contudo, sinto, em muitos casos, que as demonstrações de compreensão, de iluminação ou de repentinos saltos de maior consciência e clareza não passam de manifestações superficiais e inautênticas. Algumas, tenho de reconhecer, são autênticas mas não deixam de ser superficiais. Essa genuinidade ingénua é a que mais me preocupa. Não é como a das crianças, leve e espontânea, afinal estamos a falar de adultos. É, antes, fabricada, treinada e reforçada para passar uma imagem, pesada, de leveza e permanente boa disposição. É uma felicidade que, não o sendo, enjoa.

Não sou daqueles que fica incomodado com a felicidade dos outros, mas isto a que me refiro não é felicidade. É apenas um cenário de ilusão auto-induzido.

Constrói-se em mim a ideia de que os oradores principais, que nesta conferência não eram coaches, são as pessoas mais interessantes nestes eventos e que, neste caso, apelaram, cada um à sua maneira, a que voltem as reflexões e acções baseadas em valores humanos básicos. A tal peregrinação de que falou o poeta David Whyte.

Não se julga um livro pela capa, mas quando a capa é a única coisa a que se dá importância torna-se difícil não prestar atenção. O pior acontece quando se confunde a capa com a história e as ideias do livro. Há por aí muitas pessoas confundidas

* ICF Global Conference 2012, Londres

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Entre Arte e Ciência

João Sevilhano

Hoje apeteceu-me recuperar um artigo que escrevi há 2 anos (Setembro 2010).

O Contexto

“Advancing the art, science and practice of professional coaching” é o slogan da International Coach Federation (ICF), a maior, mais antiga e prestigiada entidade internacional na área do coaching. Na frase consta o que poderá representar uma contradição para muitos, nomeadamente para aqueles que se interessam e começam a entrar no mundo do coaching. Como pode uma disciplina ser Arte e Ciência simultaneamente? É sobre uma potencial resposta a esta questão que nos centraremos no presente texto. Numa primeira fase, pensamos ser pertinente tecer algumas considerações sobre a própria pergunta, não fossem estas, as perguntas, a principal principal ferramenta linguística de um coach!

Julgamos ser pouco habitual, ou estar esquecida, uma reflexão onde se procure a integração de Arte e Ciência; esta observação poderá estar na base de muitas das dúvidas, desconfianças e cepticismo que julgamos ainda persistir em torno do mundo do coaching. Por outro lado, existem e coabitamos com práticas, estilos e modos de estar no coaching que poderão levar a julgamentos de estranheza, perplexidade ou descrença. Mesmo a reacções com uma componente mais afectiva como a indignação ou mesmo o choque por parte de colegas coaches e, mais grave, de clientes ou potenciais clientes. Mas não é sobre esse aspecto a que chamamos, talvez sendo brandos, pouco profissional e rigoroso do coaching que pretendemos abordar neste artigo.

Acreditamos que estamos a viver uma fase de mudança, ou melhor, que é necessária uma mudança da maneira como vivemos. “Knowledge to Wisdom” é um movimento existente na Internet que reúne académicos, cientistas, gestores com diversas formações de base desde da Filosofia à Engenharia. Este movimento alerta para a necessidade de uma revolução nos objectivos e métodos académicos e científicos. Defendem uma passagem da prioridade da busca de conhecimento para a promoção da sabedoria por meios racionais. Entendem por sabedoria a capacidade de entender o que a vida tem de valor para o próprio e para os outros. A sabedoria, portanto, inclui o conhecimento mas está para além deste.

Numa linha semelhante, Julio Olalla (2009), um coach internacionalmente reconhecido e um dos fundadores do coaching ontológico, identificou o momento em que vivemos actualmente como uma série de crises: uma Crise na Epistomologia, uma Crise na Economia, uma Crise de Desconexão e uma Crise na Aprendizagem .

Ainda uma terceira perspectiva é a apresentada por Jonah Lehrer, no seu livro “Proust era um Neurocientísta” , explora a ligação entre Arte e Ciência ao escrever sobre uma série de “pessoas das artes”, onde logicamente se inclui Proust, que se adiantaram e enriqueceram s conclusões e achados científicos posteriores ou contemporâneos das suas obras. Lehrer diz-nos que estes “artistas anteciparam as descobertas da neurociência; (…) descobriram verdades acerca da mente humana - verdades reais, tangíveis - que a ciência está apenas agora a redescobrir. As suas imaginações previram os factos do futuro”.

Perseguindo a Sabedoria

É exactamente este ponto que consideramos interessante e entusiasmante! É a esta “descoberta” que chamamos sabedoria.

Numa definição que não é nossa mas com a qual concordamos plenamente, sabedoria é a integração da experiência vivida com o conhecimento. Algo que cremos que a Ciência moderna não contempla.

Enquanto os cientistas começavam a separar os pensamentos nas suas partes anatómicas, estes artistas queriam compreender a consciência a partir do interior. A nossa verdade, disseram, deve começar em nós, no modo como sentimos a realidade (Lehrer, 2009).

Sem dúvida que os avanços na tecnologia, na ciência e no conhecimento em geral nos proporcionam possibilidades inimagináveis há poucos anos atrás. O mundo global de hoje permite-nos acesso a informação e conhecimento, quase, ilimitados. Além disso o progresso tecnocientifico trouxe grandes benefícios, entre muitos outros, aumentou largamente o nosso campo de acção e actuação. Porém, estas possibilidades sem uma integração e preocupações éticas pecam por nos trazerem tantos, ou mais, males que benefícios.

Até quando continuaremos a causar problemas a nós próprios e ao nosso planeta utilizando as possibilidades que o progresso nos proporciona? A que custo? Partilhamos a ideia de Lehrer quando diz que “a cultura actual subscreve uma noção de verdade muito limitada. Se uma coisa não pode ser quantificada ou calculada, então não pode ser verdade”. Contudo, fazendo uso do conceito de sabedoria anteriormente descrito, não deixa de ser “irónico, mas verdadeiro: a única realidade que a ciência não consegue reduzir é a única realidade que alguma vez conheceremos” (Lehrer, 2009).

A Ciência moderna, cada vez mais redutora na sua busca de respostas simples para temas complexos, esquece-se da complexidade que a experiência e vivência humanas comportam em si. Perseguir a sabedoria é, para nós, o mesmo que procurar a integração entre conhecimento e a experiência, é a incorporação do aprendido, é a complementaridade entre Ciência e Arte, é a aceitação do ócio como algo positivo e útil e não necessariamente como sendo o oposto de negócio (a negação do ócio) promovendo assim o bem-estar e prazer, também no contexto profissional.

Coaching e o Caminho da Sabedoria

O coaching, pelo menos do modo como o concebemos, possibilita este tipo de atitude, de abordagem e de postura. É isso que procuramos implementar na nossa vida e é com este propósito que trabalhamos com os nossos clientes. Com o sentido de possibilitar uma (pelo menos uma) nova perspectiva para a sua vida aumentando assim as possibilidades de acção, obtendo consequentemente, resultados distintos.

Não separamos propositadamente a vida profissional da vida pessoal, apesar do equilíbrio entre estas “duas vidas” ser um tema recorrente e comum nos processos de coaching onde temos estado envolvidos. Esta não-separação resulta desta nova perspectiva, de encararmos a pessoa como um todo indissociável, movendo-se por entre diversos contextos. Cada indivíduo é um sistema complexo, é composto por outros e simultaneamente contribui para a composição destes, como nos explica Edgar Morin (2008).

Somos conscientes de que esta não é a única disciplina ou abordagem que procura a sabedoria, como a concebemos. Sabemos igualmente que outras disciplinas que procuraram aproximar-se e integrar uma faceta mais artística, afectiva, filosófica foram e são criticadas por isso mesmo. O exemplo da própria Filosofia que passou a uma disciplina quase exclusivamente académica, ou da Psicanálise que tanto foi e continua a ser alvo de críticas, desconfiança e preconceitos.

Na nossa perspectiva o coaching surge desta necessidade de integração, de olhar para o indivíduo, para a sociedade, para o mercado, para a cultura de uma forma holística. 

Será coaching a melhor palavra? Será o melhor veiculo? Será o melhor modo? Estamos convictos que não será… Que esse ainda está por inventar, ou melhor, que se terá de ir inventando, melhorando e evoluindo constantemente.

Porém, estamos igualmente convencidos, que os resultados que um processo de coaching apresenta, que os frutos e benefícios que uma cultura de coaching proporciona numa organização são inegáveis. E estamos a falar não só de resultados calculáveis, mensuráveis, tangíveis mas também de vantagens intangíveis como o bem-estar, a felicidade, tranquilidade ou a capacidade de liderança.

O coaching, como o vemos, ajuda a trazer a filosofia de volta para as ruas. Pretende que as pessoas se voltam a perguntar pelas “grandes questões”. Que voltem a “conectar-se”, com odiria Julio Olalla (2007), com o mundo que os rodeia.

Esta nova forma de estar tem dois eixos importantes: a rua e a vida. A filosofia que hoje faz falta tem de apoderar-se da rua, tem que voltar às praças, aos espaços públicos de congregação dos cidadãos. A filosofia deve deixar de ser um reduto de alguns poucos iniciados que falam uma linguagem que os demais são incapazes de entender e muito menos de seguir. A filosofia tem de recuperar a rua que perdeu há muito tempo. Ela nasceu na rua e deve voltar a ela. (Echeverría, 2007).

Referências

  • www.knowledgetowisdom.org
  • OLALLA, Julio (2009). From knowledge to wisdom: Essays on the crisis in contemporary learning. E-BOOK de Newfield Network (www.newfieldnetwork.com)
  • LEHRER, Jonah (2009). Proust era um neurocientista. Lua de Papel. 
  • MORIN, Edgar (2008). Introdução ao pensamento complexo. Instituo Piaget
  • ECHEVERRÍA, Rafael (2007). Por la senda del pensar ontológico. J.C. Sáez
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Julgar ou não julgar? Eis a questão!

João Sevilhano

Com a incerteza da altura exacta mas com a convicção que foi no segundo semestre de 2011, recordamos uma frase que um convidado, cujo nome a memória apagou, do programa de rádio “Pessoal… e Transmissível” por lá deixou: “os juízos são um sinal de inteligência”. Estamos totalmente de acordo! 

Os juízos, são estruturas linguísticas que nos permitem classificar e categorizar aquilo que vamos percepcionando, percebendo e vivendo. Estão, portanto, intimamente ligados à memória, à construção que fazemos da experiência vivida. Os juízos são como atalhos para a realidade. Libertam-nos de analisar exaustivamente, como se da primeira vez se tratasse, as mais diversas situações que se nos apresentam e agir, supostamente, em conformidade.

Imagine-se ter de fazer a experiência de se queimar cada vez que se põe um dedo numa chama, de constantemente vestir roupa a menos num dia frio ou a mais num dia quente, de ter de se conhecer intimamente cada pessoa que se encontra para poder tomar decisões acerca da mesma, de ter de analisar detalhadamente uma situação que necessita da nossa acção e que apresenta contornos semelhantes a outras que já vivemos… 

Como ficou implícito, os juízos não são apenas estruturas linguísticas que habitam na nossa memória e nas nossas ideias. Têm implicações, de forma directa e indirecta, nas nossas acções.

Ora vejamos, se eu julgo que uma colega é de confiança esta declaração tem implicações na forma como me relaciono com ela. Permite-me partilhar determinadas informações, coordenar acções de determinada forma e aperceber-me de certas emoções. Há ainda juízos mais primários, queremos dizer, que antecedem outros. Utilizando o mesmo exemplo, se eu faço juízo de que “as mulheres são mais fáceis para trabalhar em equipa” então este juízo terá implicação no juízo de confiança que emito em relação à tal colega. Os juízos contrários aos emitidos neste exemplo ditariam um conjunto de acções diferente, uma relação com outros contornos e suscitariam emoções distintas.

Além da expressão directa nas nossas acções, os juízos ajudam também a construir a nossa identidade pública. Não apenas a própria mas também a daqueles sobre quem emitimos juízos. Como nos diz Rafael Echeverría, os juízos dizem mais daquele que os emite do que a quem se dirigem.

Se por um lado os juízos são, de facto, um sinal de inteligência e nos facilitam a vida, por outro, também se podem revelar como limitações. Por exemplo, o juízo “eu não sou capaz de gerir equipas” pode tornar-se num grande obstáculo para alguém que foi recentemente promovido a um cargo que implique a coordenação de pessoas. O juízo “para se ser líder tem de ser firme” pode condicionar o estilo de liderança, da mesma forma que a declaração “os homens não choram” condiciona a manifestação de emoções por parte dos indivíduos do sexo masculino. Como se pode observar, a questão pode-se encontrar tanto na especificidade  como abrangência.

Se tivéssemos que resumir numa frase, os juízos são parte integrante e fundamental das “lentes” com que observamos, interpretamos e agimos perante o mundo. Os juízos não nascem apenas da interpretação que fazemos da realidade, eles próprios criam realidades.

É exactamente neste campo que o coaching actua. Se tivéssemos que resumir numa frase, os juízos são parte integrante e fundamental das “lentes” com que observamos, interpretamos e agimos perante o mundo. A conversação de coaching é quase como uma visita ao oftalmologista, quando experimentamos uma série de lentes até escolher aquelas que melhor se ajustam à realidade. Há, contudo, algumas diferenças fundamentais. No coaching não é o técnico que escolhe e indica as lentes a experimentar, ele cria o contexto onde o cliente possa encontrar, escolher e, às vezes, fabricar as mais adequadas. A outra diferença é que as lentes que se pretende criar com o coaching não se adequam à realidade existente mas sim a uma realidade desejada.

Quando dizemos que o coach não escolhe nem indica quais as lentes a experimentar, estamos a dizer que não utiliza os seus juízos, não os oferece. Deixa-os de parte porque, por ser coach, acredita não serão as suas lentes que solucionarão a vida do seu cliente. Crê que é o coachee que tem os recursos necessários para encontrar as soluções.

A linguagem é infinitamente mais complexa do que o sentido da visão. É por esta razão que apenas mudar de lentes não é suficiente. Não basta também mudar só o discurso, é necessário uma expressão dessa mudança nas acções, no comportamento. Qual a vantagem de declarar que “vou deixar de fumar” se não deixar de fumar, ou antes disso deixar de comprar cigarros?

Se bastasse mudar de lentes, não seriam necessários coaches, bastariam oftalmologistas e oculistas.

Não queremos com isto dizer que o coach não tem juízos. Um dos fundamentos do coaching assenta no pressuposto de que o coach é, exactamente na mesma medida, tão humano como o seu cliente. Ou seja, tão susceptível de emitir juízos como qualquer outra pessoa. A diferença está na utilização que deles faz. Numa conversação de coaching, o coach sabe identificar de onde vêm os seus juízos, para que estão a surgir e como podem tingir as suas intervenções. Por isso dizemos que a diferença entre um coach com muita experiência e um principiante, está na rapidez com que se apercebe dos seus juízos e na capacidade que tem de os afastar.

Esta “arte” apenas se consegue com prática e com um trabalho pessoal que implica aquisição de conhecimento, tempo, introspecção profunda e interacção com outros numa experiência de permanentes mudanças de paradigma. Não acontece por acaso, nem por milagre, nem com uma preparação superficial e rápida.

Portanto, um coach deve aceitar que apesar de saber impossível, caminha no sentido de não se apegar aos juízos que não consegue evitar fazer. Um coach deve ser alguém consciente dos seus limites, só assim se ultrapassará e ajudará os seus clientes a ultrapassar os desafios que a vida e os próprios criam.

Vemos riscos grandes naqueles que optam por ver nos outros e em si mesmos possibilidades ilimitadas. A própria expressão é perigosa. O perigo vem da ingenuidade. Como poderei confiar numa pessoa que acredita que não emite juízos. Que garantias tenho que não me atraiçoará? Ou pior, que não se atraiçoará? Como pode alguém ter um comportamento ético, moral e social ajustado se não ajuíza? Como pode um coach saber se é a pessoa adequada para um processo específico?

Para concluir e recorrendo uma vez mais Rafael Echeverría, “os juízos formam-se no passado, são emitidos no presente e têm implicações no futuro.” O coaching convida-nos a entender como os nossos juízos nos influenciam no presente e que futuro podemos/queremos criar, inclusive para o coaching!


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