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N377
Setúbal, 2970
Portugal

Reflexões, Partilhas e Divagações de João Sevilhano

Este site ainda não tem um propósito claramente definido. Existe, para já, para poder publicar algumas das coisas que escrevo e outras que considero interessantes de partilhar.

Há medida que o propósito for ficando mais claro, logo se reflectirá nos conteúdos e estrutura do próprio site.

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Coisas escritas por mim.

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Beleza, Fealdade e Ciência

João Sevilhano

O vídeo acima trouxe-me associação com dois livros que li recentemente, ambos de Umberto Eco.

Sem dúvida serão temas a revisitar. Tenho vontade de pensar e escrever sobre eles! Querem ajudar?
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O menosprezo pela sabedoria

João Sevilhano

A sabedoria é popular, o senso é comum e o conhecimento é cientifico.

Há qualquer coisa de errado na forma como os valorizamos, na linguagem corrente.

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Entre Arte e Ciência

João Sevilhano

Hoje apeteceu-me recuperar um artigo que escrevi há 2 anos (Setembro 2010).

O Contexto

“Advancing the art, science and practice of professional coaching” é o slogan da International Coach Federation (ICF), a maior, mais antiga e prestigiada entidade internacional na área do coaching. Na frase consta o que poderá representar uma contradição para muitos, nomeadamente para aqueles que se interessam e começam a entrar no mundo do coaching. Como pode uma disciplina ser Arte e Ciência simultaneamente? É sobre uma potencial resposta a esta questão que nos centraremos no presente texto. Numa primeira fase, pensamos ser pertinente tecer algumas considerações sobre a própria pergunta, não fossem estas, as perguntas, a principal principal ferramenta linguística de um coach!

Julgamos ser pouco habitual, ou estar esquecida, uma reflexão onde se procure a integração de Arte e Ciência; esta observação poderá estar na base de muitas das dúvidas, desconfianças e cepticismo que julgamos ainda persistir em torno do mundo do coaching. Por outro lado, existem e coabitamos com práticas, estilos e modos de estar no coaching que poderão levar a julgamentos de estranheza, perplexidade ou descrença. Mesmo a reacções com uma componente mais afectiva como a indignação ou mesmo o choque por parte de colegas coaches e, mais grave, de clientes ou potenciais clientes. Mas não é sobre esse aspecto a que chamamos, talvez sendo brandos, pouco profissional e rigoroso do coaching que pretendemos abordar neste artigo.

Acreditamos que estamos a viver uma fase de mudança, ou melhor, que é necessária uma mudança da maneira como vivemos. “Knowledge to Wisdom” é um movimento existente na Internet que reúne académicos, cientistas, gestores com diversas formações de base desde da Filosofia à Engenharia. Este movimento alerta para a necessidade de uma revolução nos objectivos e métodos académicos e científicos. Defendem uma passagem da prioridade da busca de conhecimento para a promoção da sabedoria por meios racionais. Entendem por sabedoria a capacidade de entender o que a vida tem de valor para o próprio e para os outros. A sabedoria, portanto, inclui o conhecimento mas está para além deste.

Numa linha semelhante, Julio Olalla (2009), um coach internacionalmente reconhecido e um dos fundadores do coaching ontológico, identificou o momento em que vivemos actualmente como uma série de crises: uma Crise na Epistomologia, uma Crise na Economia, uma Crise de Desconexão e uma Crise na Aprendizagem .

Ainda uma terceira perspectiva é a apresentada por Jonah Lehrer, no seu livro “Proust era um Neurocientísta” , explora a ligação entre Arte e Ciência ao escrever sobre uma série de “pessoas das artes”, onde logicamente se inclui Proust, que se adiantaram e enriqueceram s conclusões e achados científicos posteriores ou contemporâneos das suas obras. Lehrer diz-nos que estes “artistas anteciparam as descobertas da neurociência; (…) descobriram verdades acerca da mente humana - verdades reais, tangíveis - que a ciência está apenas agora a redescobrir. As suas imaginações previram os factos do futuro”.

Perseguindo a Sabedoria

É exactamente este ponto que consideramos interessante e entusiasmante! É a esta “descoberta” que chamamos sabedoria.

Numa definição que não é nossa mas com a qual concordamos plenamente, sabedoria é a integração da experiência vivida com o conhecimento. Algo que cremos que a Ciência moderna não contempla.

Enquanto os cientistas começavam a separar os pensamentos nas suas partes anatómicas, estes artistas queriam compreender a consciência a partir do interior. A nossa verdade, disseram, deve começar em nós, no modo como sentimos a realidade (Lehrer, 2009).

Sem dúvida que os avanços na tecnologia, na ciência e no conhecimento em geral nos proporcionam possibilidades inimagináveis há poucos anos atrás. O mundo global de hoje permite-nos acesso a informação e conhecimento, quase, ilimitados. Além disso o progresso tecnocientifico trouxe grandes benefícios, entre muitos outros, aumentou largamente o nosso campo de acção e actuação. Porém, estas possibilidades sem uma integração e preocupações éticas pecam por nos trazerem tantos, ou mais, males que benefícios.

Até quando continuaremos a causar problemas a nós próprios e ao nosso planeta utilizando as possibilidades que o progresso nos proporciona? A que custo? Partilhamos a ideia de Lehrer quando diz que “a cultura actual subscreve uma noção de verdade muito limitada. Se uma coisa não pode ser quantificada ou calculada, então não pode ser verdade”. Contudo, fazendo uso do conceito de sabedoria anteriormente descrito, não deixa de ser “irónico, mas verdadeiro: a única realidade que a ciência não consegue reduzir é a única realidade que alguma vez conheceremos” (Lehrer, 2009).

A Ciência moderna, cada vez mais redutora na sua busca de respostas simples para temas complexos, esquece-se da complexidade que a experiência e vivência humanas comportam em si. Perseguir a sabedoria é, para nós, o mesmo que procurar a integração entre conhecimento e a experiência, é a incorporação do aprendido, é a complementaridade entre Ciência e Arte, é a aceitação do ócio como algo positivo e útil e não necessariamente como sendo o oposto de negócio (a negação do ócio) promovendo assim o bem-estar e prazer, também no contexto profissional.

Coaching e o Caminho da Sabedoria

O coaching, pelo menos do modo como o concebemos, possibilita este tipo de atitude, de abordagem e de postura. É isso que procuramos implementar na nossa vida e é com este propósito que trabalhamos com os nossos clientes. Com o sentido de possibilitar uma (pelo menos uma) nova perspectiva para a sua vida aumentando assim as possibilidades de acção, obtendo consequentemente, resultados distintos.

Não separamos propositadamente a vida profissional da vida pessoal, apesar do equilíbrio entre estas “duas vidas” ser um tema recorrente e comum nos processos de coaching onde temos estado envolvidos. Esta não-separação resulta desta nova perspectiva, de encararmos a pessoa como um todo indissociável, movendo-se por entre diversos contextos. Cada indivíduo é um sistema complexo, é composto por outros e simultaneamente contribui para a composição destes, como nos explica Edgar Morin (2008).

Somos conscientes de que esta não é a única disciplina ou abordagem que procura a sabedoria, como a concebemos. Sabemos igualmente que outras disciplinas que procuraram aproximar-se e integrar uma faceta mais artística, afectiva, filosófica foram e são criticadas por isso mesmo. O exemplo da própria Filosofia que passou a uma disciplina quase exclusivamente académica, ou da Psicanálise que tanto foi e continua a ser alvo de críticas, desconfiança e preconceitos.

Na nossa perspectiva o coaching surge desta necessidade de integração, de olhar para o indivíduo, para a sociedade, para o mercado, para a cultura de uma forma holística. 

Será coaching a melhor palavra? Será o melhor veiculo? Será o melhor modo? Estamos convictos que não será… Que esse ainda está por inventar, ou melhor, que se terá de ir inventando, melhorando e evoluindo constantemente.

Porém, estamos igualmente convencidos, que os resultados que um processo de coaching apresenta, que os frutos e benefícios que uma cultura de coaching proporciona numa organização são inegáveis. E estamos a falar não só de resultados calculáveis, mensuráveis, tangíveis mas também de vantagens intangíveis como o bem-estar, a felicidade, tranquilidade ou a capacidade de liderança.

O coaching, como o vemos, ajuda a trazer a filosofia de volta para as ruas. Pretende que as pessoas se voltam a perguntar pelas “grandes questões”. Que voltem a “conectar-se”, com odiria Julio Olalla (2007), com o mundo que os rodeia.

Esta nova forma de estar tem dois eixos importantes: a rua e a vida. A filosofia que hoje faz falta tem de apoderar-se da rua, tem que voltar às praças, aos espaços públicos de congregação dos cidadãos. A filosofia deve deixar de ser um reduto de alguns poucos iniciados que falam uma linguagem que os demais são incapazes de entender e muito menos de seguir. A filosofia tem de recuperar a rua que perdeu há muito tempo. Ela nasceu na rua e deve voltar a ela. (Echeverría, 2007).

Referências

  • www.knowledgetowisdom.org
  • OLALLA, Julio (2009). From knowledge to wisdom: Essays on the crisis in contemporary learning. E-BOOK de Newfield Network (www.newfieldnetwork.com)
  • LEHRER, Jonah (2009). Proust era um neurocientista. Lua de Papel. 
  • MORIN, Edgar (2008). Introdução ao pensamento complexo. Instituo Piaget
  • ECHEVERRÍA, Rafael (2007). Por la senda del pensar ontológico. J.C. Sáez
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Uma explicação (demasiado) simples

João Sevilhano

De manhã, cedo, enquanto fazia uma das rotineiras viagens de carro entre casa e o escritório, dei por mim a pensar no tema a que os anglo-saxónicos normalmente designam por Nature vs. Nurture. Não consigo perceber porque me surgiu esta linha de raciocínio, é quase como quando me tento lembrar dos sonhos, que a mim tão difícil é de os recordar. Sei sim que um turbilhão de ideias estava em revolução no interior daquele carro, havia o barulho de fundo, imagino que dos carros, do rádio e do que por lá se dizia e tocava, mas disso não tenho qualquer memória porque o que pensava estava com volume demasiado alto para poder prestar prestar atenção a qualquer outra coisa. Ainda bem que temos, tenho, a capacidade de automatismo suficiente que me permite continuar a conduzir o carro nestas ocasiões.

Voltando à reflexão, difusa e pouco clara porque eram muitas as associações, fiquei-me por um conjunto de ideias, já mais fáceis de recordar. 

"Depois de tanto tempo, Descartes deixou uma herança pesada"

Tenho dito e escrito, em mais do que uma ocasião, que as grandes questões sobre a natureza humana continuam a ser as mesmas. Nos últimos tempos, depois a Revolução Industrial e da posterior "Revolução Científica", por mim designada de forma arrogante e provavelmente errada, essas mesmas questões têm sido abordadas utilizando a mesma porta de entrada: o corpo.

Depois de tantos séculos de parco e lento avanço no mundo da ciência e da produção de tantos e bons pensadores até início do século XX, parece que nos fartámos da nossa outra faceta, da que não é palpável nem mensurável. Resolvemos o dilema de Descartes de forma fácil, ignorámos uma das dimensões.

 "Se não podes medir não existe" e "Se não observo não existe"

Os avanços na medicina, nas neurociências, na biologia e na área da genética todos têm como base o mundo físico, concreto e objectivo. Afinal será disso mesmo de que se ocupa a "verdadeira" ciência.

É no corpo que cada vez mais se procuram encontrar as causas e razões para o nosso comportamento e maneira de ser e estar no mundo. Hoje tudo tem explicação e solução física e/ou química, resolvemos os nossos problemas, até aqueles que não vemos mas só sentimos, através de ajustes de quantidades.

 "Se não podes medir não podes gerir"

Em paralelo, no contexto empresarial vivemos na ilusão do controlo, do lucro e da produtividade há muito tempo, há demasiado tempo. É como se tivéssemos aproveitado esta onda de progresso na "verdadeira" ciência para explicar, justificar e utilizar uma série de práticas que de forma flagrante não são justas nem promovem evolução no que diz respeito à compreensão do fenómeno humano como um todo. Pelo contrário, têm tido efeitos perversos.

Tem-se tentado entrar por uma nova "onda", a da inteligência emocional, o equilíbrio entre vida e trabalho (que expressão tão má!) ou a felicidade, como se já se soubesse o que é… Contudo, muitas vezes estas "novas" ideias ignoram o muito que já se pensou, se escreveu e se disse durante séculos de dedicação à compreensão humana, pelo menos do seu lado metafísico. Além disso, confesso que muito do que se diz e se faz neste âmbito me envergonha…

Uma explicação (demasiado) simples

Para já, é claro para mim que há um desequilíbrio entre as duas "naturezas", a física e a subjectiva, o que é do corpo e o que é da mente. Provavelmente vivemos numa fase de compensação relativamente ao incomensuravelmente mais longo período em que a humanidade se dedicou a entender o mundo de outra forma. É assim, tendemos a ir para o extremo oposto para equilibrar as coisas…

Curioso é ver que nas chamadas civilizações menos evoluídas não se notava esta diferença de peso. Havia, em grande parte dos casos, uma maior harmonia entre o mundo físico e o mundo metafísico. Não quer dizer que essa harmonia fosse boa para nós, basta lembrar algumas das atrocidades que muitas civilizações cometeram. O mundo hoje é diferente, nós somos diferentes, mas a nossa natureza mantém-se. E essa não se divide em alma e corpo, é uma só (de alguma forma, o Damásio tinha razão quando disse que Descartes estava errado).

Há um exemplo que, para mim, ilustra bem o tipo de conjugação que considero ser o caminho acertado que o conceito de hereditariedade. Estou habituado a ouvir e ler que quando se fala de algo que é hereditário normalmente apenas se refere à questão física, genética. Quando não é transmitido geneticamente é porque é "uma coisa educacional". Ou é um ou é outro. E se considerarmos os dois? Há um conceito psicanalítico, a transgeracionalidade, que combinado com a hereditariedade poderia tornar muito mais ricas e abrangentes as possíveis novas reflexões e descobertas. De forma muito bruta este conceito, descreve uma forma de transmissão através das matrizes relacionais e afectivas ao longo do tempo. Da mesma forma que recebemos informação genética dos nossos progenitores, recebemos também "informação" afectiva, que passa de geração em geração.

Claro que tudo isso tornaria a ciência mais difícil. É mais fácil isolar as variáveis, de preferência as que conseguimos controlar, e estudá-las. Afinal temos que conseguir replicar para poder chamar "verdade" ao que descobrimos.

Aliás,  na minha percepção, hoje há uma vontade evidente em "ascender a outros níveis consciência". O que continua a ser triste para mim é a tendência para optar pelos caminhos fáceis: drogas, explicações simplistas, fuga, fundamentalismo, etc..

Talvez o desafio não seja mudar o mundo em direcção a um "novo ideal" ou uma "nova consciência". Talvez o desafio seja aprender a viver bem neste mundo. Talvez dessa forma, ao tocar e influenciar, através do nosso exemplo, as pessoas que nos rodeiam, esse mundo venha a acontecer. 

Para que possa acontecer tal mudança, a elite das pessoas com qualidade humana possa sobressair. Porque hoje "a elite" não tem grande qualidade.

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Misticismo, magia e o mundo secular

João Sevilhano

Começo por dizer que não estou muito confortável com este título. Talvez porque o tenha escolhido antes de escrever o texto, para me recordar de o fazer, e porque reflecte apenas a superfície ou uma ramificação das ideias que me proponho abordar. Veremos onde me leva o bater das teclas…

A linha de raciocínio é antiga mas os acontecimentos que a fizeram despertar são relativamente recentes. Começo por enunciá-los, mostrando assim um pouco do processo associativo que conduziu a estas palavras agora escritas:

  • Há cerca de 3 semanas terminei de ler o livro “Religion for Atheists” do Alain de Botton;
  • Passada outra semana, “sem querer” e sem ter tido a consciência imediata da possível ligação, até porque estávamos a trabalhar, tive uma conversa interessantíssima com um colega e amigo onde abordamos o tema;
  • O Ricardo Araújo Pereira escreveu na sua habitual crónica da revista Visão, no dia 19 de Julho, uma peça com o título “Igreja Universal do Reino do Empreendedorismo”.
  • Na noite que terminei de escrever este texto e que programei a sua publicação. Vi isto.

A componente mais antiga, profundamente pessoal e que me acompanha há tanto tempo que nem capaz sou de precisar quanto, prende-se com dúvidas, desconhecimento e não concordância com uma visão do mundo que se fundamenta em princípios mágicos e místicos. Importa confessar que me considero um céptico curioso. O que me leva a ter uma postura de questionamento, indagação e busca de compreensão daquilo que imediatamente não concordo, que não faz parte das minhas capacidades de observação e interpretação e/ou simplesmente não gosto à partida. Não me limito a recusar aquilo não conheço ou concordo nem tampouco me satisfaz ter uma explicação final. Gosto de as ir construindo. 

Creio que o que me incomoda mais é a superficialidade, a demasiado fácil aceitação e acomodação de explicações abrangentes, simplistas e que aparentemente resolvem “o mistério” da vida. Aquilo que chamei em tempos de fast food intelectual.

Lembro-me de, num passado não muito distante, considerar as religiões como o exemplo óbvio e que melhor ilustrava este sentimento. Hoje não penso assim.

Sinto necessidade de abrir um parênteses para clarificar um aspecto. Imagino que quem leu estes últimos parágrafos poderá ter ficado com a imagem e expectativa de que serei um indivíduo defensor da ciência e do seu método. Eu próprio me inclinaria para construir essa opinião até porque não é uma completa inverdade. Importa por isso esclarecer que, apesar de me considerar um homem de ciência, sem saber bem o que isso quer dizer, sou bastante crítico quanto a grande parte da ciência que se tem feito e se faz. Exploraremos este ponto adiante. 

Fechado o parênteses, acredito que a maior parte das religiões têm na sua base valores e ideais que conduzem ou induzem práticas que visam uma sã convivência social, a introspecção e reflexão individuais que produzam frutos para o desenvolvimento pessoal e colectivo, no fundo, à prática e evolução dos princípios morais e éticos. Poderíamos resumir dizendo que procuram e promovem o contacto e consequente conhecimento da condição humana. A religião não é o problema, têm sido os homens, os supostos criadores e “utilizadores” da religião, que sob o seu estandarte têm feito as maiores tropelias. Tanto a História como o presente o comprovam. Enfim, também este lado é parte da condição humana. A desumanidade é parte da humanidade. 

No seu último livro, Alain de Botton deixa a ideia que o mundo secular não sabe e não tem as competência para nos ajudar a praticar esses valores. Algo que a religião faz bem e há muito tempo. Que rituais não religiosos temos para praticar a amizade, a fraternidade, a ajuda ao próximo, o altruísmo? Ele alude às teorias da aprendizagem, comprovadas por alguns estudos científicos e ideias actuais, para dizer que precisamos de praticar esses valores da mesma forma que praticamos e desenvolvemos as competências pessoais e profissionais que o mundo secular moderno exige. A religião oferece, e fá-lo bem, um conjunto de rituais e de rotinas que permitem praticar os referidos valores e competências. Para o autor, ser ateu é não acreditar - para mim será não ficar satisfeito - na explicação religiosa, mágica ou mística de nós e do mundo. Isso não invalida que se admire, procure compreender e aproveitar aquilo que as religiões têm de bom e podem trazer de positivo para todos nós, até para os ateus.

A sensação que tenho e que sinto ser partilhada por muitos, nomeadamente por algumas gerações contemporâneas com as respectivas idiossincrasias, é que há uma falência de valores. Aliás este tema tem sido explorado exaustivamente. Este sentimento tem levado muitos a procurar explicações e práticas alternativas. Nada disto é novo, basta olhar para o movimento hippie para estabelecer uma espécie de paralelo e poder verificar que este sentimento desconfortável é cíclico e acompanhou grandes mudanças de paradigma ao longo dos tempos. A onda do “alternativo” tampouco é novidade. Vivemos, afinal, na era da auto-ajuda que se inclui num conjunto de situações que me assustam, preocupam e me têm ocupado. Vejo-as ligadas. 

O Ricardo Araújo Pereira captura muito bem, no seu estilo satírico e sempre inteligente, aquilo a que me refiro. Identifiquei-me de tal forma com o que escreveu que ainda não desapareceu o desejo de ter sido eu a escrever aquele texto!

Hoje a religião é a do tempo. Como “tempo é dinheiro” este último também entra na equação. O paradigma vigente é o da produtividade, do empreendedorismo, da pro-actividade, do crescimento, do lucro, do bem-estar e da felicidade. Tudo combinado e juntando o sucesso social e financeiro daria a vida perfeita, segundo os padrões actuais. 

De reparar que nenhum dos “princípios” enunciados, com as excepções do bem-estar e da felicidade, parecem enquadrar-se bem num contexto religioso. Tenho também percepção que o desejo por uma vida em que segue e adopta este paradigma parece ganhar um sentido de urgência com a conjuntura actual. Também por causa dela, da conjuntura, parece cada vez mais difícil conseguir reunir condições para empreender, para ser produtivo, fazer mais dinheiro com menos tempo de trabalho, para aumentar o equilíbrio entre a “vida pessoal” e a “vida profissional” atingindo simultaneamente o bem-estar e a felicidade. 

Não admira que muitos de nós se sintam atraídos por estas vidas, que se deixem entusiasmar e iludir por este tipo de discurso. Para afastar dúvidas basta abrir uma rede social, com especial enfoque para o Facebook, para encontrar intermináveis *posts* com frases inspiradoras e que em grande parte dos casos revelam pouca inspiração, citações descontextualizadas de grandes e pequenos pensadores, etc.; basta visitar a FNAC e verificar a quantidade de títulos de auto-ajuda; ver e ouvir uma palestra TED; participar num dos muitos workshops ou consultar um dos demasiados terapeutas que praticam uma das centenas de terapias, novas e velhas. Um infindável role de vómitos pseudo-intelectuais e pseudo-filosóficos. Afinal, este texto, cuja plataforma onde foi publicado liga automaticamente às as redes sociais, corre sérios riscos e tem todas as condições para se enquadrar nessa categoria. 

Voltando à ciência, concretamente à neurociência, hoje exploram-se ideias que vão no sentido que aquilo que vivemos, que a forma como atribuímos sentido às coisas, que o que somos poderá não passar de uma ilusão. Continua-se a seguir a “mania” cartesiana de separar corpo e mente, o objectivo do subjectivo, as sinapses, os neurotransmissores, as regiões cerebrais e suas funções da sua expressão subjectiva na nossa vivência.

À semelhança do que acontece com a religião, nem tudo na ciência e no seu método é mau. A indagação, a ocupação com encontrar um contexto e uma história para as hipóteses que se formulam são essenciais. Já disse e escrevi que acredito que não há grande diferença, ou mesmo nenhuma, entre as grandes questões humanas consideradas clássicas e aquelas que continuam por responder hoje. Será uma ilusão esperar que as dúvidas e inseguranças que nos assolam são originais, apenas nossas. Há uma probabilidade enorme, para não falar em certeza, de que alguém já se perguntou e em alguns casos chegou a respostas que nos influenciaram a todos. 

Por outro lado, aproveitando muito a moda das neurociência, a “onda alternativa” procura teorias integradoras e de compreensão holística do ser humano mas que são suportadas por pensamentos mágicos, quase transformando-se num novo sentido religioso. 

Há de facto fenómenos que nos transcendem, que ultrapassam a realidade física e que são de difícil aceitação e compreensão. Talvez parte do problema venha de uma angústia fundamental que nos leva a uma procura de explicações cabais e universais e a uma necessidade excessiva de controlo. Acredito que essa transcendência, ou poderei chamar de espiritualidade, não tem de estar necessariamente ligada a um pensamento magico, místico ou religioso. Creio que o mundo subjectivo dos afectos e imensamente complexo e rico e que antes de o explicar ou controlar há que o viver e conhecer bem, através da experiência individual. 

Costumo dar um exemplo dizendo que acredito na vida para além da morte. Que essa impressão que deixamos perdura na memória dos outros. Memória essa que é guardada fisicamente, tem expressão afectiva e é transformada pelo seu “portador”. 

Para mudar o rumo, porque acredito que é necessário, sei que eu preciso de encontrar o meu, há que considerar uma alternativa ao “fenómeno alternativo” e à corrente científica actuais. Há que recuperar valores, práticas e princípios que hoje se acredita não fazerem parte do nosso tempo. 

Pense-se no lugar da Filosofia. Antigamente era uma prática, um estilo de vida que inspirava indivíduos e ajudou a construir civilizações. Actualmente é uma disciplina seguida por indivíduos condenados ao desemprego…

Resta ainda muito por pensar, por dizer e por escrever. Muitas associações deixei por explorar. Vou dar tempo. Porque essa será também uma forma, acredito, de mudar de paradigma. Caso contrário continuarei com a mesma avidez, a mesma que critico, para conseguir chegar a uma explicação que me satisfaça e me apazigúe esta boa angústia que acredito partilhar com todos os seres humanos. O que não quer dizer que todos dela tenhamos consciência. 

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