No reino das grandes áreas do saber, já depois do auge onde todo o seu esplendor, beleza e complexidade seduziam de forma incontornável; tendo, por isso, perdido já algum do seu sex appeal - exibindo uma elegância típica das divas que, apesar da sua condição privilegiada , ganham com o passar dos anos - a Filosofia começou a interessar a Medicina. Esta última, ganhava um novo estatuto, apesar de sempre ter estado próxima dos deuses. Pode-se até conjecturar que se terá aproveitado da “velha” diva, embora a verdade nunca se tenha descoberto e, provavelmente, nunca se venha a descobrir.
Certo é que a Filosofia correspondeu envolvendo-se calorosamente, mas não às claras, com a vistosa Medicina que, entre sangrias desenfreadas, truques de magia e alquimia, se dedicava à dádiva da vida, ou pelo menos ao seu prolongamento - ou seria antes ao adiamento da morte? Não interessará, por agora. A primeira não se dedicava a prolongar o tempo dos vivos mas a entender o próprio tempo e a própria vida, entre outras coisas com mais e menos importância.
Após um curto e intenso romance surge uma filha, que nunca se percebeu se foi desejada por algum dos progenitores. Terá nascido porque os homens terão visto a (des)elegante decadência da Filosofia e a poderosa ascensão da Medicina. Com este fruto da sua relação, as duas amantes nunca mais se entenderam. Finalmente havia algo que estudava, que procurava investigar, compreender e intervir nos desígnios da alma. Assim, os homens, tanto os que eram cartesianos como os que nem sabiam o que isso significava, tinham "tratamento completo" para o corpo e agora para alma. Nascia a Psicologia.
A Psicologia olhando para as suas figuras parentais assexuadas, tendo óbvias dificuldades em se identificar com qualquer uma delas, jogou pelo seguro e aliou-se à que se tornara mais forte. Seguiu o conselho da Biologia que, por sua vez, tinha aprendido com um velho homem de barbas brancas que andara a viajar pelo mundo e a estudar pássaros nas Galápagos.
A jovem foi crescendo e hoje, como é típico de uma adolescente, procura a sua autonomia entrando muitas vezes em choque com a sua figura paterna de referência. A outra, a Filosofia, parece estar a querer voltar a ter relevância. Tanta falta faz à humanidade!
Durante o tempo que nunca parou de correr, outros, sobretudo a Economia e a Política, cresceram e passaram a ocupar mais espaço, demasiado espaço, implantando-se nas ideias e incorporando-se nos organismos, organizações e instituições dos homens. Por isto, a ainda jovem área do saber que tanto se esforça por ser Ciência, afastando-se claramente da sua progenitora Filosofia e, apesar de tudo, mantendo-se mais próxima da Medicina, encontrou diversas estratégias. Uma das mais infames foi a sua balcanização, a sua fragmentação em pedaços, correntes e abordagens, por vezes contraditórias e opostas. Outra não menos famosa, por razões pouco recomendáveis, foi a sua prostituição, que à vezes nem isso era pois nada pedia como retribuição, “emprestando-se” a outros que apenas a utilizaram a seu proveito contribuindo inclusive para manchar a sua imagem.
Nem tudo está perdido! Muito de bom foi criado entretanto. Pode ainda juntar-se à Filosofia, à Cultura, à Arte, enquanto se afasta, sem nunca romper, com a Ciência, sobretudo com a sua facção fundamentalista, rígida e interesseira.
Mas, enfim, a Psicologia, a Medicina, a Filosofia, a Economia, a Política e outras apenas vivem através das vidas vidas dos homens e estão por isso sujeitas ao seu imenso poder criativo, apenas equiparado ao seu poder destrutivo.
*Adverte-se que qualquer aproximação deste texto ficcional à realidade será pura coincidência. Será?
Mas o que é isso da realidade? Que realidade? Será realidade para o autor? Haverá risco de se tornar realidade para algum leitor?