juízos

Génio e Absurdo (2)

A mesma ideia da publicação anterior com uma forma diferente...

Transient

Embora não o tenha escrito, sentir-me-ia mal se não fizesse referência ao Dominc Wilcox. Foi ao ler o seu livro "Variations on Normal" que me surgiu a ideia para esta publicação e para a anterior.

Génio e Absurdo

A diferença entre o que é genial e o que é absurdo, ou estúpido, depende do número de pessoas que faz cada um desses juízos.

Há sempre, pelo menos, uma pessoa que considera genial uma ideia estúpida e o contrário é igualmente válido.

Grave é quando uma ideia genial é considerada absurda pelo seu autor.

Manual de Instruções

Os juízos são o manual de instruções do mundo. São uma forma de atribuir sentido às coisas. Um meio de satisfazer a nossa vontade insaciável de categorizar e etiquetar.

Quando temos já o nosso “arquivo” bem organizado e categorizado, não demoramos muito a fazê-lo, facilmente construímos “manuais de instruções” que, por sua vez, são alimentados pela cultura, educação e experiência. As próprias categorias sofrem as mesmas influências.

Isto é muito evidente nas religiões, por exemplo, que nos dão manuais bastante simples para seguir princípios bastante complexos. Não entraremos por aqui, contudo. Os curiosos poderão interessar-se por este livro.

Que faríamos se o nosso manual de instruções já não servisse para explicar como funcionam as coisas?

Provavelmente sentir-nos-íamos perdidos, sem referência, a “apalpar terreno”… Tanto pode ser uma fonte de aprendizagem como de frustração e medo imobilizadores.

Que acontece quando um produto/situação muda ou é actualizado?

O manual de instruções anterior não servirá. Há que investir tempo para criar e/ou ler as novas indicações.

O verdadeiro ponto não será nenhum dos destes. A questão é que quando temos o nosso arquivo bem arrumado e criamos categorias para atribuir sentido a tudo o que se passa, somos espectacularmente rápidos a encaixar numa dessas gavetas as situações/experiências/pessoas “novas”.

Esta, extraordinariamente útil, capacidade de categorizar que possuímos, por muito que nos acelere as respostas e reacções, poderá ter um lado prejudicial. A impossibilidade de verdadeiramente nos ligarmos às situação, às experiências e/ou às pessoas com quem interagimos.

O risco e a tentação de interagirmos com “o nosso arquivo” em vez da realidade que nos circunda são permanentes.

Julgar ou não julgar? Eis a questão!

Com a incerteza da altura exacta mas com a convicção que foi no segundo semestre de 2011, recordamos uma frase que um convidado, cujo nome a memória apagou, do programa de rádio “Pessoal… e Transmissível” por lá deixou: “os juízos são um sinal de inteligência”. Estamos totalmente de acordo! 

Os juízos, são estruturas linguísticas que nos permitem classificar e categorizar aquilo que vamos percepcionando, percebendo e vivendo. Estão, portanto, intimamente ligados à memória, à construção que fazemos da experiência vivida. Os juízos são como atalhos para a realidade. Libertam-nos de analisar exaustivamente, como se da primeira vez se tratasse, as mais diversas situações que se nos apresentam e agir, supostamente, em conformidade.

Imagine-se ter de fazer a experiência de se queimar cada vez que se põe um dedo numa chama, de constantemente vestir roupa a menos num dia frio ou a mais num dia quente, de ter de se conhecer intimamente cada pessoa que se encontra para poder tomar decisões acerca da mesma, de ter de analisar detalhadamente uma situação que necessita da nossa acção e que apresenta contornos semelhantes a outras que já vivemos… 

Como ficou implícito, os juízos não são apenas estruturas linguísticas que habitam na nossa memória e nas nossas ideias. Têm implicações, de forma directa e indirecta, nas nossas acções.

Ora vejamos, se eu julgo que uma colega é de confiança esta declaração tem implicações na forma como me relaciono com ela. Permite-me partilhar determinadas informações, coordenar acções de determinada forma e aperceber-me de certas emoções. Há ainda juízos mais primários, queremos dizer, que antecedem outros. Utilizando o mesmo exemplo, se eu faço juízo de que “as mulheres são mais fáceis para trabalhar em equipa” então este juízo terá implicação no juízo de confiança que emito em relação à tal colega. Os juízos contrários aos emitidos neste exemplo ditariam um conjunto de acções diferente, uma relação com outros contornos e suscitariam emoções distintas.

Além da expressão directa nas nossas acções, os juízos ajudam também a construir a nossa identidade pública. Não apenas a própria mas também a daqueles sobre quem emitimos juízos. Como nos diz Rafael Echeverría, os juízos dizem mais daquele que os emite do que a quem se dirigem.

Se por um lado os juízos são, de facto, um sinal de inteligência e nos facilitam a vida, por outro, também se podem revelar como limitações. Por exemplo, o juízo “eu não sou capaz de gerir equipas” pode tornar-se num grande obstáculo para alguém que foi recentemente promovido a um cargo que implique a coordenação de pessoas. O juízo “para se ser líder tem de ser firme” pode condicionar o estilo de liderança, da mesma forma que a declaração “os homens não choram” condiciona a manifestação de emoções por parte dos indivíduos do sexo masculino. Como se pode observar, a questão pode-se encontrar tanto na especificidade  como abrangência.

Se tivéssemos que resumir numa frase, os juízos são parte integrante e fundamental das “lentes” com que observamos, interpretamos e agimos perante o mundo. Os juízos não nascem apenas da interpretação que fazemos da realidade, eles próprios criam realidades.

É exactamente neste campo que o coaching actua. Se tivéssemos que resumir numa frase, os juízos são parte integrante e fundamental das “lentes” com que observamos, interpretamos e agimos perante o mundo. A conversação de coaching é quase como uma visita ao oftalmologista, quando experimentamos uma série de lentes até escolher aquelas que melhor se ajustam à realidade. Há, contudo, algumas diferenças fundamentais. No coaching não é o técnico que escolhe e indica as lentes a experimentar, ele cria o contexto onde o cliente possa encontrar, escolher e, às vezes, fabricar as mais adequadas. A outra diferença é que as lentes que se pretende criar com o coaching não se adequam à realidade existente mas sim a uma realidade desejada.

Quando dizemos que o coach não escolhe nem indica quais as lentes a experimentar, estamos a dizer que não utiliza os seus juízos, não os oferece. Deixa-os de parte porque, por ser coach, acredita não serão as suas lentes que solucionarão a vida do seu cliente. Crê que é o coachee que tem os recursos necessários para encontrar as soluções.

A linguagem é infinitamente mais complexa do que o sentido da visão. É por esta razão que apenas mudar de lentes não é suficiente. Não basta também mudar só o discurso, é necessário uma expressão dessa mudança nas acções, no comportamento. Qual a vantagem de declarar que “vou deixar de fumar” se não deixar de fumar, ou antes disso deixar de comprar cigarros?

Se bastasse mudar de lentes, não seriam necessários coaches, bastariam oftalmologistas e oculistas.

Não queremos com isto dizer que o coach não tem juízos. Um dos fundamentos do coaching assenta no pressuposto de que o coach é, exactamente na mesma medida, tão humano como o seu cliente. Ou seja, tão susceptível de emitir juízos como qualquer outra pessoa. A diferença está na utilização que deles faz. Numa conversação de coaching, o coach sabe identificar de onde vêm os seus juízos, para que estão a surgir e como podem tingir as suas intervenções. Por isso dizemos que a diferença entre um coach com muita experiência e um principiante, está na rapidez com que se apercebe dos seus juízos e na capacidade que tem de os afastar.

Esta “arte” apenas se consegue com prática e com um trabalho pessoal que implica aquisição de conhecimento, tempo, introspecção profunda e interacção com outros numa experiência de permanentes mudanças de paradigma. Não acontece por acaso, nem por milagre, nem com uma preparação superficial e rápida.

Portanto, um coach deve aceitar que apesar de saber impossível, caminha no sentido de não se apegar aos juízos que não consegue evitar fazer. Um coach deve ser alguém consciente dos seus limites, só assim se ultrapassará e ajudará os seus clientes a ultrapassar os desafios que a vida e os próprios criam.

Vemos riscos grandes naqueles que optam por ver nos outros e em si mesmos possibilidades ilimitadas. A própria expressão é perigosa. O perigo vem da ingenuidade. Como poderei confiar numa pessoa que acredita que não emite juízos. Que garantias tenho que não me atraiçoará? Ou pior, que não se atraiçoará? Como pode alguém ter um comportamento ético, moral e social ajustado se não ajuíza? Como pode um coach saber se é a pessoa adequada para um processo específico?

Para concluir e recorrendo uma vez mais Rafael Echeverría, “os juízos formam-se no passado, são emitidos no presente e têm implicações no futuro.” O coaching convida-nos a entender como os nossos juízos nos influenciam no presente e que futuro podemos/queremos criar, inclusive para o coaching!