génio

Génio e Absurdo (2)

A mesma ideia da publicação anterior com uma forma diferente...

Transient

Embora não o tenha escrito, sentir-me-ia mal se não fizesse referência ao Dominc Wilcox. Foi ao ler o seu livro "Variations on Normal" que me surgiu a ideia para esta publicação e para a anterior.

Desilusão?

Há bastante tempo que não recebia nada, estranhei pois assino algumas publicações e subscrevo alguns blogues onde o Jonah Lehrer escrevia. Voltei à sua página e confirmei que não tinha sido actualizada, no blogue da revista New Yorker nada era publicado desde meados de Junho.

Decidi pesquisar no Google por notícias com o seu nome e foi então que surgiu a desilusão. Num curto espaço de menos de 2 meses viu-se envolvido em duas polémicas que o fizeram retirar-se e neste momento nada se encontra sobre o "miúdo prodígio" desde finais de Julho.

Ao pensar sobre a minha desilusão, apercebi-me rapidamente que razões existiam para ela surgir, afinal já tinha pensado nelas embora com outras motivações. Identifiquei-me desde cedo com o tipo, praticamente da minha idade, escrevia sobre temas que me interessam há muito tempo, avançava ideias e explicações sedutoras e que me faziam, facilmente, sentido, escreve bem e "conheci-o" numa fase da vida onde o considerava um modelo. Alguém que tinha conseguido na vida (profissional) o que eu gostaria de conseguir. Melhor escrevendo, ele tinha conseguido um modo de fazer dinheiro que me seduzia.

Também, rapidamente, senti que essa desilusão não era assim tão intensa, ou, pelo menos, começava a esmorecer rapidamente. Pensei "este é um exemplo da humanidade do tipo, que mesmo, ou sobretudo, o génio, é uma qualidade e defeito humanos, ele fez o que fez porque é humano". Este desapontamento que desaparecia trouxe-me alguma clareza sobre a vida que eu procuro, ou procurava. Ela tem riscos e, também, podia estar a ser desejada por alguns motivos errados.

É bom ser reconhecido, é bom ser considerado excepcional, extraordinário, é bom ganhar a vida a fazer o que se gosta. Não quero com isto dizer que eu seja essa pessoa, que sinta tudo isso, mas não duvido que seja, de facto, bom! Apercebi-me também que há posições que se procuram ou nas quais nos encontramos que trazem consigo expectativas e, consequentemente, pressões que por serem velozes e repentinas não nos deixam com tempo suficiente para que a elas nos acostumemos, para que com elas possamos aprender.

Será esse o fardo da juventude? Da humanidade?

Interessei-me por esta reflexão e decidi aprofundar. Não deixa de me surpreender que as ideias, por mais geniais que sejam, nunca estão separadas de quem as cria e de quem as emite (podem não ser as mesmas pessoas). Neste caso, não foi o brilhantismo das suas ideias, nem a qualidade da escrita, tampouco a capacidade sedutora que este homem foi capaz de rapidamente espalhar pelos meios cientifico, literário e jornalístico que o atraiçoaram. Foi ele mesmo. Imagino que foi aquilo em que ele, provavelmente de forma demasiado rápida, se tornou que o terá levado a agir daquela forma.

O tipo escrevia semanalmente, às vezes mais do que uma vez por semana para várias publicações de renome sobre temas imensamente complexos. Era (é? )elogiado e considerado um génio, um prodígio.

Hoje cultiva-se a personalidade, as ideias já não têm tanta importância. Para mim a questão interessante é que umas não vivem sem outras.  

Corro o risco de me tornar repetitivo mas acredito que as grandes ideias não são como as cerejas. Acredito que pouco está por inventar no que diz respeito às grandes questões da humanidade, apesar das "grandes" e numerosas descobertas "científicas" das últimas décadas.

Toda esta situação me alertou e recordou que a coerência é das coisas mais difíceis de alcançar, que a ambição, mesmo a bem intencionada, é um colorante sem côr que facilmente turva águas límpidas. Que a visibilidade e o reconhecimento "consensual" nos empurram por um caminho difícil de percorrer. Que é mais fácil acreditar nos outros, mesmo quando nos oferecem elogios que parecem tão exagerados mas que encaixam na perfeição, do que construir um caminho, uma vida sustentada em valores que nos permitam não atraiçoar os outros nem a nós próprios.

Estou desiludido e estou também mais rico.