Anonimato
João Sevilhano
O anonimato é um contexto privilegiado para testar e conhecer a autenticidade e congruência das nossas acções.

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O anonimato é um contexto privilegiado para testar e conhecer a autenticidade e congruência das nossas acções.

É inegável a tendência humana para categorizar, para arrumar toda a experiência em "gavetas com etiquetas". Uma das expressões desta tendência e capacidade revela-se na polarização. Um tipo particular de categorizarão que está disponível como um conjunto de atalhos de fácil acesso que nos permitem conduzir a vida, a nossa acção, os nossos comportamentos num determinado sentido.
Bem vs. Mal, Certo vs. Errado, Bonito vs. Feio, Normal vs. Anormal, Normal vs. Patológico, Arte vs. Ciência... São demasiados os exemplos clássicos para os listar todos. Apenas com esta breve lista fica uma ideia do poder e complexidade que esta forma de pensar contém.
Numa época em que sobressaem valores como a Produtividade, a Eficácia, o Lucro, o Empreendedorismo, é expectável que se criem espectros com pólos como:
Por exemplo, saber gerir bem uma empresa, ganhar e dar a ganhar muito dinheiro, é hoje muito mais importante do que viver bem com o parceiro(a), ser bom pai/mãe (e para isso é necessário saber o seu significado), saber dar e receber, contribuir com mais do que bens materiais, deixar um legado afectivo.
Vive-se sob a égide de fazer mais e melhor para ter mais e melhor. Ser melhor passou para segundo plano.
Apesar disso, nos dias que correm, é muito habitual ouvir queixas e lamentações, desejos e sonhos de um maior equilíbrio, de atingir a virtude que residirá, se o que diz o ditado é verdade, no meio. Exactamente a meio caminho entre os dois pólos. Estranhos tempos vivemos (que cliché…). Tempos onde aquilo que, finalmente, percebemos que queremos ser está tão longe das nossas acções. Onde as soluções encontradas não passam de saliva numa ferida aberta, de ilusões, de cenas bem orquestradas por aqueles que definham mas precisam de manter o status: nós próprios. Que ingénuos somos.
Os que não o são sofrem. Sabem que este não é o caminho mas também não estão seguros do seu porque, na esmagadora maioria das vezes, não será reconhecido, à luz do quadro de referência ainda vigente.
É difícil fazer parte de uma minoria, mesmo que seja uma elite. Aprenda-se a viver com este "fracasso", com este insucesso. Se suficientes pessoas o fizerem desta forma talvez a Sabedoria se sobreponha aos Valores que têm um número associado.
Para Montaigne, sempre apoiado na, para ele, "pessoa mais sábia que viveu", o filósofo grego Sócrates, a sabedoria está mais próxima do saber viver bem. Diferente de outro tipo de conhecimento que se obtém através da aprendizagem (formal ou tradicional, digo eu) que se liga ao saber fazer.
Reflicta-se sobre o papel das escolas, da família, dos pais, das empresas, dos governos.
Estamos hoje, sem dúvida, mais conhecedores. A informação e o conhecimento estão e continuarão a estar cada vez mais acessíveis.
Mas estaremos mais sábios? Ou pelo menos a caminhar nesse sentido?
Este é um espectro a que devemos estar mais atentos, que deve estar "mais à mão": Sabedoria vs. Conhecimento.

Antes de ser compreendido, antes de procurar arduamente, na esperança de encontrar alguém que me compreenda, antes fazer um esforço, por vezes hercúleo, para que os outros me compreendam, devo procurar conhecer-me.
Se compreender porque e para que preciso que outros me compreendam, se genuinamente me der ao trabalho de os conhecer, há o forte risco de deixar de sentir essa necessidade.
Tenho a sensação de que é um trabalho sem fim.

Embora não seja ainda parte do senso comum, em alguns meios, nomeadamente na Linguística e Filosofia da Linguagem, a linguagem é mais que um conjunto de símbolos convencionados que servem para descrever a realidade. A linguagem em si é realidade, cria realidades. A linguagem é acção.
A inconsequência do discurso é uma situação comum, bem mais do que o desejável, e nos dias que correm é fonte de muitos dos graves e complexos problemas e desafios que vivemos. É basicamente a incoerência entre o dito e o feito, entre a acção declarada e a acção efectiva.
Como a linguagem é, por si só, acção, o discurso terá sempre consequências, como toda a acção. O impacto nota-se tanto ao nível do emissor como ao nível dos receptores.
Heis dois cenários possíveis, entre muitos outros:
Um discurso inconsequente, incongruente com as acções efectivas seguintes, influencia a imagem pública do emissor. Influencia a ideia que terceiros constroem do portador da "mensagem", do actor linguístico.
Mesmo que a identidade pública não seja afectada, há o risco de o próprio entrar e percorrer uma espiral de culpa, de tensão e pressão provocada pela realidade criada pela linguagem. A declaração tem o poder vinculativo a um futuro. A não aproximação a esse futuro poderá configurar-se como um factor motivador deste tipo de sofrimento.

A mesma ideia da publicação anterior com uma forma diferente...
Embora não o tenha escrito, sentir-me-ia mal se não fizesse referência ao Dominc Wilcox. Foi ao ler o seu livro "Variations on Normal" que me surgiu a ideia para esta publicação e para a anterior.

