Café com leite

Café com leite

Sento-me numa esplanada de Lisboa, no dia em que uma tempestade inesperada transforma algumas ruas em canais, a fazer crer que nasceram sete colinas em Veneza. À minha frente senta-se um homem, depois de investigar qual das cadeiras não tinha sido limpa pelas águas da chuva. Demora pouco a escolher e deixa-se cair, depois de se virar de frente para a rua. Inspira de tal forma que não consegue evitar tossir. Puxa de um cigarro para acalmar a tosse. Um paradoxo, como tantos outros de que somos feitos. Isto de sermos "bestas racionais" - lembro-me do Platão, do Espinoza e do Kant - tem que se lhe diga. Temos o dom da razão, sim. Mas permanecemos tão irracionais como as outras bestas. Continuo a bebericar o café com leite que pedira minutos antes. Este é mesmo café com leite e não leite com café, a julgar pela cor do líquido que enche o copo. Puxo por um cigarro sem me apetecer fumar. Não tenho tosse mas há uma outra coisa qualquer que preciso de acalmar. Vou atrás, imito, sou influenciado. Que besta!

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Ler cansa, mas é um bom cansaço

Ler cansa, mas é um bom cansaço

Deitado em cima de paletes de madeira, leio um livro de capa roxa, ou lilás, ou púrpura - tantas palavras para descrever uma mesma cor, não fosse eu homem conseguiria rápida e facilmente escolher uma palavra para descrever a luz que reflecte desta forma particular na capa deste livro - com um título que é um nome de uma cidade, escrito de forma brilhante. O que leio está tão bem escrito que sou levado para dentro da história; olho para as personagens como se aqui estivessem. Por estar tão bem escrito, de vez em quando, sou levado a desviar os olhos das páginas para ir ao encontro das ideias que me surgem sem que eu queira.

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Sobre escrever e não escrever

Sobre escrever e não escrever

Houve um tempo em que não tinha vontade de escrever. Melhor, tinha vontade mas não o fazia. Não sabia, na altura, que essa seria uma forma de poder esvaziar-me, libertando espaço para descobrir de novo. As palavras amontoavam-se, amontoaram-se, guardando as perspectivas, os sentimentos, as ideias e as vivências. Não se perderam, essas palavras e outras coisas que não chegaram a ter nome. Viveram, cresceram e evoluíram para agora tingirem todas as outras que agora escrevo, com uma vontade nova mas que não é assim tão recente.

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Fazer-se companhia

Fazer-se companhia

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Sempre existiram dois tipos de pessoas: as que decidem viver à superfície e as que se arriscam nas profundezas. Os primeiros sempre foram a maioria, isso não é diferente hoje do que foi no passado, acredito. Parece-me claro que a escolha de ter uma “vida entretida” ou de se querer viver em pleno nem sempre é consciente. As mulheres e os homens que se apercebem que pode haver mais para além da superfície tendem a aventurar-se pelo desconhecido, tanto dentro e como fora de si. É claro também que não há apenas dois tipos de pessoas. Há também as que, mesmo depois de espreitarem para lá do que à primeira vista se consegue observar, não têm a capacidade ou julgam que não podem ir por esse caminho, resignando-se ou voltando apenas a uma vida de entretenimento, da procura da satisfação imediata dos desejos.
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