Fazer-se companhia

Fazer-se companhia

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Sempre existiram dois tipos de pessoas: as que decidem viver à superfície e as que se arriscam nas profundezas. Os primeiros sempre foram a maioria, isso não é diferente hoje do que foi no passado, acredito. Parece-me claro que a escolha de ter uma “vida entretida” ou de se querer viver em pleno nem sempre é consciente. As mulheres e os homens que se apercebem que pode haver mais para além da superfície tendem a aventurar-se pelo desconhecido, tanto dentro e como fora de si. É claro também que não há apenas dois tipos de pessoas. Há também as que, mesmo depois de espreitarem para lá do que à primeira vista se consegue observar, não têm a capacidade ou julgam que não podem ir por esse caminho, resignando-se ou voltando apenas a uma vida de entretenimento, da procura da satisfação imediata dos desejos.
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Verão

Sento-me num banco de um jardim de Lisboa enquanto espero a hora para que está marcada uma conversa a quatro. A cidade e eu cheiramos a Verão, altura do ano que pede grandes liberdades e chama por pequenas responsabilidades. 

A imparável passagem das estações tornou mais pequena a ilusão de ser livre e fez com que a realidade de se ser responsável se tornasse adulta. 

Contudo, há coisas que o tempo não muda em relação ao Verão. O Sol continua a pairar mais baixo, enquanto nos banha com o calor que obriga a mergulhar nas águas doces e salgadas. A pele continua a dourar-se, às vezes a queimar-se. Há pedras da areia que continuam teimosamente a colar-se aos pés e a lá ficar durante dias, tal como as lapas se agarram a uma rocha. O cheiro do mar mistura-se com o aroma que o Sol deixa nos corpos e na roupa. Os dias longos convidam o sono a ficar sossegado durante mais tempo e, por isso, as noites mais compridas também. O cabelo levanta-se empurrado pelo sal das águas, como se precisasse dos raios de Sol para se alimentar. 

A relação com a liberdade e com a responsabilidade mudou, mas a vontade de ser mais livre e menos responsável chegará sempre com o Verão.

Improviso sobre a lucidez

Improviso sobre a lucidez

Estava aqui, parado. À espera que algo saísse. As palavras viajam depressa demais para as poder agarrar. O corpo, inquieto, embora aos olhos dos outros seja impossível de perceber, fala tão alto que não me deixa ouvir os violinos que, segundo leio no ecrã do computador, deveriam estar a fazer-se escutar através dos fios brancos que me caiem das orelhas.