Da vivência das palavras

Da vivência das palavras

Para mim, as palavras não são apenas símbolos que se utilizam descriminada e indiscriminadamente; não são apenas traços de tinta que se desenham, mal, no meu caso, no papel; não são apenas “zeros” e “uns” que se conjugam de forma programada e que fazem parecer magia o bater de teclas que vai pintando as telas em branco de um qualquer ecrã...

 

História Universal e Particular

História Universal e Particular

Crédito imagem: Bill Domonkos

Passos os dias a ouvir histórias, a contá-las, a interpretá-las, a dar-lhes sentido. Passo os dias a inventar histórias para dar um sentido àquilo que não tem; a pôr uma ordem, mesmo que aparente, ilusória e transitória, no caos. 

Passa o tempo e a história vai-se escrevendo, reescrevendo. Nunca se corrige. 

...

Outono

Outono

De pé, à janela, que ao ser aberta se queixa da sua idade com um guincho que me magoa os ouvidos, reparo nas folhas que voam. Folhas carregadas pelo vento que sopra de sul, deixando o ar mais quente do que seria suposto para a época. O mesmo vento que se encarrega de as libertar do resto de vida que tinham. Apenas viviam porque estavam presas...

Rugas e vincos

Rugas e vincos

O tempo passa. Pode-se deixar que ele passe, pode-se esperar que ele não passe, pode-se permitir que se instale a ilusão de que a sua passagem não nos afecta; mas não se pode passar por ele. Em todos os casos, o tempo, com a sua marcha imparável, deixa sempre as suas marcas. Vincos escavados nas faces pelos sorrisos e pela falta deles; rugas que não se vêem com os olhos, traçadas pela presença e pela ausência dos mesmos sorrisos.

Das rugas e dos vincos, tal como da passagem do tempo, não se pode escapar...

...

Café com leite

Café com leite

Sento-me numa esplanada de Lisboa, no dia em que uma tempestade inesperada transforma algumas ruas em canais, a fazer crer que nasceram sete colinas em Veneza. À minha frente senta-se um homem, depois de investigar qual das cadeiras não tinha sido limpa pelas águas da chuva. Demora pouco a escolher e deixa-se cair, depois de se virar de frente para a rua. Inspira de tal forma que não consegue evitar tossir. Puxa de um cigarro para acalmar a tosse. Um paradoxo, como tantos outros de que somos feitos. Isto de sermos "bestas racionais" - lembro-me do Platão, do Espinoza e do Kant - tem que se lhe diga. Temos o dom da razão, sim. Mas permanecemos tão irracionais como as outras bestas. Continuo a bebericar o café com leite que pedira minutos antes. Este é mesmo café com leite e não leite com café, a julgar pela cor do líquido que enche o copo. Puxo por um cigarro sem me apetecer fumar. Não tenho tosse mas há uma outra coisa qualquer que preciso de acalmar. Vou atrás, imito, sou influenciado. Que besta!

...