Ler cansa, mas é um bom cansaço

Ler cansa, mas é um bom cansaço

Deitado em cima de paletes de madeira, leio um livro de capa roxa, ou lilás, ou púrpura - tantas palavras para descrever uma mesma cor, não fosse eu homem conseguiria rápida e facilmente escolher uma palavra para descrever a luz que reflecte desta forma particular na capa deste livro - com um título que é um nome de uma cidade, escrito de forma brilhante. O que leio está tão bem escrito que sou levado para dentro da história; olho para as personagens como se aqui estivessem. Por estar tão bem escrito, de vez em quando, sou levado a desviar os olhos das páginas para ir ao encontro das ideias que me surgem sem que eu queira.

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Sobre escrever e não escrever

Sobre escrever e não escrever

Houve um tempo em que não tinha vontade de escrever. Melhor, tinha vontade mas não o fazia. Não sabia, na altura, que essa seria uma forma de poder esvaziar-me, libertando espaço para descobrir de novo. As palavras amontoavam-se, amontoaram-se, guardando as perspectivas, os sentimentos, as ideias e as vivências. Não se perderam, essas palavras e outras coisas que não chegaram a ter nome. Viveram, cresceram e evoluíram para agora tingirem todas as outras que agora escrevo, com uma vontade nova mas que não é assim tão recente.

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Fazer-se companhia

Fazer-se companhia

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Sempre existiram dois tipos de pessoas: as que decidem viver à superfície e as que se arriscam nas profundezas. Os primeiros sempre foram a maioria, isso não é diferente hoje do que foi no passado, acredito. Parece-me claro que a escolha de ter uma “vida entretida” ou de se querer viver em pleno nem sempre é consciente. As mulheres e os homens que se apercebem que pode haver mais para além da superfície tendem a aventurar-se pelo desconhecido, tanto dentro e como fora de si. É claro também que não há apenas dois tipos de pessoas. Há também as que, mesmo depois de espreitarem para lá do que à primeira vista se consegue observar, não têm a capacidade ou julgam que não podem ir por esse caminho, resignando-se ou voltando apenas a uma vida de entretenimento, da procura da satisfação imediata dos desejos.
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Verão

Sento-me num banco de um jardim de Lisboa enquanto espero a hora para que está marcada uma conversa a quatro. A cidade e eu cheiramos a Verão, altura do ano que pede grandes liberdades e chama por pequenas responsabilidades. 

A imparável passagem das estações tornou mais pequena a ilusão de ser livre e fez com que a realidade de se ser responsável se tornasse adulta. 

Contudo, há coisas que o tempo não muda em relação ao Verão. O Sol continua a pairar mais baixo, enquanto nos banha com o calor que obriga a mergulhar nas águas doces e salgadas. A pele continua a dourar-se, às vezes a queimar-se. Há pedras da areia que continuam teimosamente a colar-se aos pés e a lá ficar durante dias, tal como as lapas se agarram a uma rocha. O cheiro do mar mistura-se com o aroma que o Sol deixa nos corpos e na roupa. Os dias longos convidam o sono a ficar sossegado durante mais tempo e, por isso, as noites mais compridas também. O cabelo levanta-se empurrado pelo sal das águas, como se precisasse dos raios de Sol para se alimentar. 

A relação com a liberdade e com a responsabilidade mudou, mas a vontade de ser mais livre e menos responsável chegará sempre com o Verão.