Outono

De pé, à janela, que ao ser aberta se queixa da sua idade com um guincho que me magoa os ouvidos, reparo nas folhas que voam. Folhas carregadas pelo vento que sopra de sul, deixando o ar mais quente do que seria suposto para a época. O mesmo vento que se encarrega de as libertar do resto de vida que tinham. Apenas viviam porque estavam presas. Tornaram-se demasiado leves, demasiado castanhas, para poderem continuar a existir no sítio onde nasceram, verdes. Agora voam, vivem outra vida. Morrem para fazer viver, porque “a morte é uma experiência dos vivos”, disseram-me uma vez. 

E eu, vivo, de pé, olho, através da janela velha, as folhas que vivem a sua morte, a voar. 

Rugas e vincos

Rugas e vincos

O tempo passa. Pode-se deixar que ele passe, pode-se esperar que ele não passe, pode-se permitir que se instale a ilusão de que a sua passagem não nos afecta; mas não se pode passar por ele. Em todos os casos, o tempo, com a sua marcha imparável, deixa sempre as suas marcas. Vincos escavados nas faces pelos sorrisos e pela falta deles; rugas que não se vêem com os olhos, traçadas pela presença e pela ausência dos mesmos sorrisos.

Das rugas e dos vincos, tal como da passagem do tempo, não se pode escapar...

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Café com leite

Café com leite

Sento-me numa esplanada de Lisboa, no dia em que uma tempestade inesperada transforma algumas ruas em canais, a fazer crer que nasceram sete colinas em Veneza. À minha frente senta-se um homem, depois de investigar qual das cadeiras não tinha sido limpa pelas águas da chuva. Demora pouco a escolher e deixa-se cair, depois de se virar de frente para a rua. Inspira de tal forma que não consegue evitar tossir. Puxa de um cigarro para acalmar a tosse. Um paradoxo, como tantos outros de que somos feitos. Isto de sermos "bestas racionais" - lembro-me do Platão, do Espinoza e do Kant - tem que se lhe diga. Temos o dom da razão, sim. Mas permanecemos tão irracionais como as outras bestas. Continuo a bebericar o café com leite que pedira minutos antes. Este é mesmo café com leite e não leite com café, a julgar pela cor do líquido que enche o copo. Puxo por um cigarro sem me apetecer fumar. Não tenho tosse mas há uma outra coisa qualquer que preciso de acalmar. Vou atrás, imito, sou influenciado. Que besta!

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Ler cansa, mas é um bom cansaço

Ler cansa, mas é um bom cansaço

Deitado em cima de paletes de madeira, leio um livro de capa roxa, ou lilás, ou púrpura - tantas palavras para descrever uma mesma cor, não fosse eu homem conseguiria rápida e facilmente escolher uma palavra para descrever a luz que reflecte desta forma particular na capa deste livro - com um título que é um nome de uma cidade, escrito de forma brilhante. O que leio está tão bem escrito que sou levado para dentro da história; olho para as personagens como se aqui estivessem. Por estar tão bem escrito, de vez em quando, sou levado a desviar os olhos das páginas para ir ao encontro das ideias que me surgem sem que eu queira.

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Sobre escrever e não escrever

Sobre escrever e não escrever

Houve um tempo em que não tinha vontade de escrever. Melhor, tinha vontade mas não o fazia. Não sabia, na altura, que essa seria uma forma de poder esvaziar-me, libertando espaço para descobrir de novo. As palavras amontoavam-se, amontoaram-se, guardando as perspectivas, os sentimentos, as ideias e as vivências. Não se perderam, essas palavras e outras coisas que não chegaram a ter nome. Viveram, cresceram e evoluíram para agora tingirem todas as outras que agora escrevo, com uma vontade nova mas que não é assim tão recente.

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